Já faz tempo…

Faz tempo que não escrevo para o blog, apesar de ter continuado a seguir a leitura dos livros da lista.  Coisas da vida… com uma doença autoimune no caminho… foram alguns meses no hospital… mas agora estou de volta!

Atenta ao blog, e com muito conteúdo para colocar em dia! Espero que isto me ajude, pois como diz o dito popular:  “mente desocupada é a oficina do diabo.”

Tolstói e o ponto de vista canino.

A sensibilidade de Tolstói é notória, bem como seu amor pela vida no interior, pelo contato e harmonia com a natureza. Tanto o é que não surpreende a sua decisão em mudar para o campo. Optar por uma vida simples, sem o glamour de grande escritor reconhecido e aclamado, e acabar por ser um dos inspiradores do movimento de não violência.

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Algumas passagens de sua vida são pouco conhecidas. Antes de escrever “Ana Karenina”, em 1866, ele fundou uma escola no campo, a fim de atender às crianças das redondezas. Aplicou teorias educacionais diferentes das de então, sendo influenciado por Russeau.

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Tolstoi e crianças/ Fonte da imagem

Nesta época escreveu para os filhos de camponeses que frequentavam sua escola, diversos contos que incorporou às leituras escolares. Entre as melhores histórias estavam as sobre seus cães, Bulka e Milton (Se tiver curiosidade, você pode conferir “As histórias de Bulka”, livro lançado há alguns anos pela editora 34). Essa semente, essa percepção da vivência animal, não pára por aí e aprimora-se com os anos.

Passa despercebido na maioria das resenhas e comentários que escuto de “Ana Karenina”, um capítulo do romance em que Tolstói altera o foco da ação, e os personagens na caçada cedem lugar a Laska, a cachorra de Liêvin que ganha destaque.

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Edição brasileira de “Histórias de Bulka”.

Os humanos estão lá, mas num segundo plano sem graça, e o que vemos durante estas páginas é a vida interior do cachorro. Seus raciocínios, pensamentos e sufocos em comunicar-se com seu dono. Ajudá-lo a entender as suas orientações e conselhos para uma empreitada bem sucedida.

Laska está nervosa, Laska discorda, Laska manipula, Laska critica. Laska é um personagem tão importante quanto qualquer outro.

É uma surpresa grata em meio à leitura, essa presença canina. Mais sensível, significativa, e rica do que todos easter egs, das Dineys, Pixar e Dreamworks da vida.

A importância do tradutor ou para Bárbara Heliodora

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Falecida hoje, Bárbara Heliodora, além de crítica teatral também atuava como tradutora. / Fonte da imagem

 

O tradutor é antes de tudo um artista. Alguém que se deixa ficar na penumbra para que grandes obras tenham o destaque que merecem. Destaque este que ajudaram a evidenciar.

A figura do tradutor ganha cada vez mais evidência no Brasil, embora isto aconteça com relativa timidez por parte do mercado editorial.

Sim, é evidente que o mercado teve uma evolução e encontramos investimentos na melhora geral das edições. Inclusive as traduções, que alcançam algum brilho. Um sinal dos tempos em que os livros ficaram mais atraentes, pois tem a concorrência inequívoca e direta da internet.

“Uma das coisas às quais você deve prestar atenção ao comprar um livro é na tradução”. Você já deve ter ouvido esta frase varias vezes, mas talvez não tenha se dado conta de que expressa uma verdade fundamental, seja você apreciador de literatura ou leitor de ocasião. Assim como esta existem outras máximas tais como: “Não se pode traduzir poesia”.

O fato é que entre a maioria dos títulos à disposição no mercado se dá o fenômeno contrário. Primeiro deve-se levar em consideração que a maioria dos títulos à venda são traduções. Você encontrará sim, uma infinidade de livros de poesia estrangeira, e em grande parte do material disponível, tanto poesia como prosa, o realce no papel do tradutor é diminuto.

Outra vez, antes de falar do papel do tradutor, cabe aqui uma caracterização que deve ser referendada. A diferença entre a tradução técnica e a literária.

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Além de escritor Machado de Assis também atuou como tradutor.

A tradução técnica é aquela que se destina a transpor a barreira do idioma e transcrever o que foi escrito de um idioma para outro. Parte da língua-fonte (idioma estrangeiro) para a língua meta (idioma para o qual se pretende traduzir). O tradutor deve possuir conhecimento da área a que se refere o texto a ser traduzido tais como mecânica, engenharia, moda, filosofia e etc. Pois além da tradução propriamente dita, faz uma aclimatização, uma transposição do conteúdo para a realidade de quem lê.

A tradução literária, por outro lado é um exercício de intensa proximidade do tradutor com o autor e seu idioma. Sua missão é não apenas a de traduzir a obra, mas a de deixar o escritor se exprimir em outra língua. Cabe reflexão, estudo, pesquisa e, sobretudo, sensibilidade, para permitir ao leitor algo o mais próximo possível da experiência de ler determinado autor como se tivesse fluência em sua língua.

Grandes nomes da literatura nacional também atuaram como tradutores. Dizem que o trabalho de tradução proporciona ao escritor uma outra aproximação com o texto. Amplia a sua visão, sua capacidade argumentativa e aprimora sua estrutura textual. Para quem se dedica à escrita, traduzir o trabalho de outro escritor é como dar uma espiada em sua mente e por alguns momentos raciocinar como ele. Estar em sua pele.

No Brasil, os tradutores estão reunidos em dezenas de associações que buscam ampliar e regulamentar o mercado brasileiro. Associações tais como a SINTRA (Sindicado nacional dos Tradutores) e a ABRATES (Associação Brasileira de Tradutores e Interpretes).

Muito do pouco burburinho que o trabalho de tradução encontra no Brasil se deve ao fato de que a maioria das pessoas desconhece a amplitude e importância do mesmo. Para tanto, digo que é necessário se colocar no lugar do tradutor, o que vem a ser uma experiência de contato direto com a obra e a força criadora que a produziu, a qual, dependendo da profundidade não se dissipa com facilidade.

Na próxima vez em que ler uma tradução, preste atenção ao trabalho deste profissional. Conheça mais de uma versão da mesma obra, se possível confira o livro no original, e principalmente quando estiver em frente a uma tradução magnífica, elogie, indique e sinta-se grato.

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Fonte das Imagens:

Luís Fernando VeríssimoMillôr Fernandes, Mário Quintana, João Ubaldo Ribeiro, Paulo Leminski, Ferreira Gullar, Haroldo de Campos, Manoel Bandeira, Bárbara Heliodora.

Laura Kieler, a mulher que inspirou Ibsen a escrever “Casa de Bonecas”.

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Gillian Anderson como Nora / The Guardian

Nascida Laura Smith Petersen, e posteriormente conhecida pelo nome de casada, Laura Kieler foi uma escritora promissora dos idos de 1869.

Neste ano ela publicou um livro intitulado: “Brand`s Daughters: a Picture of Life”. Este livro propunha-se a ser uma espécie de continuação da peça “Brand” de Ibsen, a qual foi o seu primeiro grande sucesso e estertor para a fama mundial. Ibsen tomou conhecimento da obra e manifestou sua admiração pelo texto e talento da novata, eles então passaram a trocar correspondências.

Os dois conheceram-se no verão de 1871 quando Laura visitou o dramaturgo por dois meses em sua casa em Dresden, onde morava com a família desde o regresso da Itália.

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Laura Kieler / Fonte da imagem

Ibsen sempre teve necessidade de estar cercado por figuras femininas fortes. Segundo Sharon Linnea, responsável por uma edição crítica de Casa de Bonecas nos EUA, mesmo tendo se casado em 1858, “por toda a sua vida, no entanto, Ibsen continuou a ter flertes com mulheres mais jovens”. Segundo seu biógrafo Michael Meyer, os dois se davam muito bem e passaram muito tempo juntos por ocasião desta visita. Ibsen a chamava de “minha cotovia”, por sua vivacidade, alegria e doçura. Ele também a encorajou a escrever e perseguir uma carreira literária. Ela repetiu a visita cinco anos mais tarde, quando já casada e acompanhada de seu marido, Victor Kieler, visitou o autor na sua casa em Monique.

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Victor Kieler / Fonte da imagem

Em 1876 o marido de Laura adoeceu de tuberculose, e ela, seguindo as recomendações médicas da época, chegou à conclusão de que a única maneira de fazê-lo restabelecer sua saúde, seria tirar um período de férias em um local mais quente. Ainda segundo Meyer eles “não tinham meios para isso e Kieler tornou-se neuroticamente histérica a qualquer menção de dinheiro, portanto ela resolveu obter um empréstimo secretamente” (Meyer p.443).

No entanto, antes disso, uma das primeiras pessoas a quem Laura recorreu em seu desespero por dinheiro foi Ibsen. Ela escreveu uma carta para a esposa dele e junto enviou um manuscrito terminado às pressas, pedindo que o convencesse a usar de sua influência com seu editor para conseguir a publicá-lo. Esperava com o dinheiro do adiantamento ter o suficiente para o descanso e tratamento do marido. A resposta de seu ídolo, contudo, não foi nada lisonjeira e, desconhecendo a real situação de sua protegida, aconselhou-a a esperar mais um tempo para publicar seus trabalhos:

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Henrik Ibsen / Fonte da imagem

“Você está pensando em continuar a escrever ? É preciso muito mais do que o mero talento. É preciso ter algo para criar a partir de alguma experiência genuína. Se não se tem isso, não se escreve, no verdadeiro sentido, só se fazem livros. Intelectualmente, o homem é um animal a ser compreendido com distanciamento; vemos mais claramente à partir de uma distância; sem detalhes para distrair; deve- se afastar o que se quer para julgar; um escritor descreve o verão melhor em um dia de inverno. A principal coisa é ser verdadeiro e fiel a si mesmo. Não é questão de estar disposto a ir nessa ou naquela direção, mas de querer o que se é absolutamente necessário, porque um escritor só pode ser ele mesmo e não pode ser de outra forma. O resto são apenas mentiras.”

(Carta de Henrik Ibsen para Laura Kieler).

Logo que sua mulher mostrou-lhe a carta, Ibsen desconfiou de que algo estava sendo omitido, suas observações a ela a este respeito foram paternais. Como se não entendesse a sua lealdade a um homem que estivesse ignorando seus sofrimentos.

“Em uma família onde o marido ainda está vivo, ele não deveria deixar ser necessário para a esposa, sacrificar o próprio sangue, como você está fazendo. Eu não entendo, tampouco, como ele pôde permitir que você sofresse assim. Deve haver algo que você está omitido em sua carta, e que mudaria toda a história.” E completou: “O que quer que esteja te incomodando, coloque nas mãos do seu marido. É ele quem deve suportar.” (cont.)

Quando a história do empréstimo fraudulento veio à tona, ignorando que ela havia feito isso para salvar sua vida, seu marido pediu o divórcio e afastou-a de seus filhos. Julgada infame pela sociedade da época, que ficou chocada com o episódio, Laura sucumbiu à pressão e teve um colapso nervoso, sendo internada em uma instituição para doentes mentais. O casal Ibsen, tentou através de amigos saber notícias de Laura em vão. Foi nesta época que ele começou a escrever “Casa de Bonecas”.

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A esposa de Ibsen Suzannah Daae Thoresen / Fonte da imagem

Depois de um período de internação, ela recebeu alta e acabou eventualmente voltando para o marido, a despeito da forma com a qual ele a havia tratado. Mesmo após voltarem a ser um casal, Victor a manteve distante de seus filhos por um período de dois anos.

As relações entre Ibsen e Laura, contudo, azedaram de vez. Visivelmente constrangida e irritada por se ver transformada em uma peça, ela nunca o perdoou.

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Gillian Anderson / Fonte da imagem

Ele por sua vez, colheu os louros da peça e não parou por aí. “Casa de bonecas” Não é a única peça de Ibsen na qual ela é presença. Em seu último trabalho, “Quando despertarmos de entre os mortos” a roupa de Irene, a mulher misteriosa, é uma referência ao vestido usado por Kieler na ocasião de sua primeira visita em Dresden, no momento em que se conheceram, e assim como ela se ressentiu por ver sua vida “transformada em arte”, Irene se sentia violada e usada por Rubek.

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Laura Kieler / Fonte da imagem

Henrik Ibsen entrou para a história como um dos maiores dramaturgos de todos os tempos. Laura viveu com a família na Dinamarca até seus últimos dias. Passou a escrever livros históricos sobre sua terra natal e tentou até o fim criar uma vida onde não passasse para a posteridade como a fonte de inspiração de “Casa de Bonecas”. Intuito no qual, como todos sabem, falhou.

Fontes:

http://ibsen.nb.no/id/83.0

http://ebenezermaxwellmansion.org/tag/laura-kieler/

http://peoplecheck.de/s/laura+kieler

Meyer, Michael. Ibsen A Biography. Garden City: Doubleday and Company, Inc., 1971.

Linnea, Sharon. A Doll’s House and Hedda Gabler. Woodbury, N.Y. : Barron’s Educational Series (April 1985)

Templeton, Joan. Ibsen´s Women. Cambridge:. Cambridge University Press, 1997

Nora e a superioridade

A imagem veio daqui

Quando escrevia sobre Casa de Bonecas, citei uma passagem que me fez repensar a vida, em dado momento da peça, Nora conversa com sua amiga e esta, faz um comentário. Comentário este que eu mesma já ouvi à exaustão. Nos últimos tempos senti um enorme afastamento de uma amiga, pensava eu se tratar apenas de uma divergência política, e algumas atitudes tomadas por ela, que hoje eu leio como passivo agressivas, culminaram com o fim da amizade.

Qual não foi a minha surpresa ao ler a peça e ver a amiga de Nora fazer o tal comentário. Foi também neste momento do texto que eu percebi a força e a perspicácia de Nora (aquela mesma que eu não tive). Sua colocação enérgica, pontual e justa. Fica portanto a lição: ninguém que faça pouco do seu sofrimento e aproveite o mesmo momento para posar de vítima das circunstâncias merece seu respeito, carinho ou atenção. Infelizmente eu não tive a mesma sacada de Nora, mas sua amiga quando imediatamente confrontada pelo subterfúgio covarde que usava, assume a culpa e se desculpa. Dificilmente eu teria presenciado uma reação semelhante. Se não fosse esta cena, eu talvez passasse algum tempo pensando sobre, mas gracas a Ibsen não é o caso. Pequenas lições, pequenas coisas, que afloram ao ler os clássicos e fazem aquela diferença na nossa vida. Creio que é  isso o que eles mais acrescentam, compreensão arguta do que é o humano.

A primeira visita

George Orwell and 1984 Quotation

Nada como novos projetos!  Adoro manter a cabeça ocupada e já pensava em fazer um novo blog há algum tempo, mas nunca conseguia dar uma pausa para planejar.  Depois de muito confabular comigo mesma decidi fazer um blog sobre literatura.

Passei os últimos meses pesquisando, enquanto o Brasil explodia por conta das eleições. Não vou negar que me atraiu mais do que as dezenas de discussões que eu deixei de ter ou acabei tendo no Facebook. Só que lá é outro território e por aqui eu dito as regras. A primeira delas é: vamos acrescentar! A segunda: vamos aprender! A terceira: vamos ler!

É…essa é a minha contribuição para o Brasil, e para as pessoas próximas ou não. Vou me esforçar para transformar a experiência da leitura em algo dinâmico.  Tomara que consiga! E se você chegou até aqui e leu estas “mal traçadas” linhas esta convidado a me acompanhar.

Como optei pela lista do Clube do Livro da Noruega, resolvi começar com a primeira obra elencada. Vamos logo em direção ao totalitarismo de “1984” de George Orwell (o que depois das eleições brasileiras só pode ser encarado como algum tipo de piada cósmica).

Publicarei além de textos sobre o livro, material para embasamento da obra e pesquisa. Espero que este bem humorado diário de leitura/estudos ajude você também, ou ao menos o contamine.

É isso!

Beijos

Rafaela

 

Experiência de Hemingway

Ernest Hemingway and Martha Gelhorn
Montparnasse
Nunca há suicídios de pessoas que conhecemos no nosso quarteirão
Suicídios que deram certo;
Um garoto chinês se mata e morto fica.
(e continuam colocando sua correspondência na caixa postal)
Um garoto norueguês se mata e morto fica.
(ninguém sabe onde o outro garoto norueguês foi parar)
Uma modelo é encontrada morta
sozinha na cama e morta fica.
(o que deu um trabalho quase insuportável ao concierge)
Azeite de oliva, clara de ovos, mostarda e água, espuma de sabão
e sonda estomacal salvam as pessoas que conhecemos.
Todas as tardes podemos encontrar alguém que se conhece num café.