Pistas de Nora – Parte Um – Conversa com a Senhora Linde

Alguns detalhes da peça “Casa de Bonecas” de Henrik Ibsen, são importantes para a assimilação da obra, no entanto, podem passar despercebidos pela maioria dos leitores.

Durante o vídeo pedi que vocês prestassem atenção em alguns detalhes, agora os comento aqui no blog em partes. Vamos à primeira delas:

Conversa com a Senhora Linde.

Um dos fatos mais inusitados da peça é a mudança de Nora no decorrer da história, mas será que isso realmente aconteceu?

Logo na primeira cena do texto, em uma conversa com sua amiga, ela deixa claro que não.

Quando a Senhora Linde faz uma comparação entre a vida das duas, não consegue conter o impulso de se fazer de vítima, e a reação da protagonista é instantânea. Em duas falas ela, por assim dizer, coloca a amiga em seu devido lugar. Tudo isso, apesar de sutil, é o primeiro indicativo de quem na verdade ela é.

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Um pequeno detalhe, numa simples troca de palavras é revelador quanto à trajetória interior desta personagem, que sabe defender sua honra como ninguém.

Na realidade, Nora sempre foi senhora de si, e isto é bem referenciado a partir deste ponto durante a conversa. Ela apenas se adequou a vida das pessoas com quem conviveu, e em especial na dos dois homens mais importantes da sua vida.

Até este momento, a heroína havia se mostrado uma mulher, alegre, fútil e docemente desatenta. Este arroubo mostra que a banda nunca tocou desse jeito. Todo o seu comportamento é um papel, primeiro representado para o pai e posteriormente para o marido. E a sua exata natureza, até então oculta, aflora.

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Para todos os efeitos, e principalmente para estes dois homens, ela era uma boneca, e toda a sua existência, seus anseios e seu ser mais complexo, era para eles um arremedo do que consideravam vida. Era um complemento do brinquedo: a casa de bonecas.

No andamento da peça não podemos deixar de perceber algumas coisas sobre Nora. Por exemplo, uma pessoa com tanta presença de espírito, não pode ser levada, ou conduzida ao que quer que seja. Ela não “despertou” para a verdade, apenas constatou que as bases do seu casamento sempre foram frágeis. E que o seu posicionamento em relação ao do marido era flagrantemente assimétrico.

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Tônia Carrero como Nora / Fonte da imagem

Outra coisa a ser salientada é que ela sabia muito bem o que havia feito e carregava esta proeza como uma insígnia de glória. Em seu íntimo era ciente de que seu ato não poderia ser considerado totalmente reprovável. Sentia em seu coração possuir a reciprocidade de entendimento do marido, que se decepcionaria, é verdade. Mas não deixaria de ver, em nenhum momento também na imprudência um ato de amor.

Para ela foi um crime plenamente perdoável, embora indiscreto. Já dizia Nietzsche: “O que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal”. Aforismo típico de quem vive a embriaguez de uma vida idealizada. Pôxa Nora! O cara morreu de sífilis! Mesmo que ignorasse a máxima, qualquer coisa em seu entorno poderia tê-la feito se ligar…

Mas Nora não via em seu comportamento anulação propriamente dita. Para ela era um gesto de amor, um teatro inocente, pois se acreditava amada sem nunca questionar os limites, e as conveniências vinculadas a este amor. A verdade é dura.

Enfim, viver em uma casa de bonecas não é coisa para pessoas de carne e osso.

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